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Índios vendem artesanatos do lado de fora da ExpoIjuí

Por, Marizandra Rutilli

Matéria Publicada em: 17/10/2016

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

EXPOIJUÍ/FENADI 2016


Índios vendem artesanatos do lado de fora da feira.
A invisibilidade dos nossos olhos me dói na alma, dói a cultura seletiva. 
Índio é marginal numa feira de "culturas diversificadas".

"Monumentos a estrangeiros 
Hoje se vê em qualquer praça, 
Mas ao percursos da raça 
Não há a mínima lembrança, 
Nem ao pingo - nem a lança 
De taquara chamuscada 
Que foi a primeira espada 
Do meu Rio Grande criança."

ODE ÀS MISSÕES E AO ÍNDIO MISSIONEIRO
Jayme Caetano Braun

Pedaço eterno da história 
Desarvorado ao relento 
Que a sombra do esquecimento 
Solitário se esfumaça, 
Dai saiu a argamassa 
Que - de tijolo em tijolo - 
Uniu com barro crioulo 
Os alicerces da raça.

Vai mais de trezentos anos 
Se perdendo nas neblinas 
Que as legendárias batinas 
Aportaram a este chão 
Alterando, desde então 
As velhas feições da terra 
E abafando hinos de guerra 
Nos sinos da redução.

Nem se funda o Rio Grande, 
Nem o lendário Viamão. 
P pago era céu e chão 
Coxilha - Várzea e perau - 
Já o Uruguai dera vau. 
Numa apoteose bravia, 
E o Gaúcho antenascia 
No velho São Nicolau!

Desde ai - essa gleba imensa - 
Chamuscada a casco e raio - 
Foi sempre o tubo de ensaio 
Da raça que se moldava 
E na mente do tuxava, 
Primitiva, entemerata 
A idéia vaga de Pátria 
Crescia e se delineava.

Muito distante e alheio 
As ambições de Castela 
Amava a terra e por ela 
Despreocupada morria - 
E no mais - só conhecia - 
Além d’algum sortilégio 
O incomparável colégio 
Da campeira geografia.

Recebera dos jesuíta 
Quase a par do catecismo 
Noções de militarismo 
E até lampejos de arte, 
Mas, mesmo erguendo um baluarte, 
No seio desta campanha 
Pouco lhe importava a Espanha 
Tinha o chão por estandarte.

Tinha horror ao bandeirante 
Que vinha - de além Laguna - 
Bater a pampa reiúna 
Na mal sinada paragem - 
E tão xucra era a coragem 
Que desde o berço trazia 
Que o missioneiro morria 
Pra não prestar vassalagem.

Veio então - o Português, 
Ao continente Del Rey, 
Arvorado em juiz e lei, 
Trazendo um mar de soldados. 
Mercenários apegados, 
Menos ao ideal que ao soldo, 
Roubando e queimando toldo 
Na execução de tratados.

E qual seria - patrícios - 
A reação - em qualquer era? 
-Quando até da própria fera 
Se reconhece o covil??? 
Correu o sangue viril, 
Neste imenso território 
Que foi o laboratório 
Do Gaúcho do Brasil.

E foi o filho da terra 
De melenas desgrenhadas, 
O dono destas canhadas 
Reduto onde se criara - 
Que - de lança de taquara - 
Escreveu sobre a planura 
Com sangue, a velha escritura 
Do Rio Grande tapejara.

E fica então a pergunta: 
Qual dos três seria o intruso? 
O índio - o Espanhol - o Luso? 
A história parcial - se cala; 
Mas quando o coração fala, 
No tribunal da consciência, 
Deste ao índio reverência 
Pois é injustiça nega-la!

Enalteçamos os feitos 
E as conquistas lusitanas, 
Trancemos nobres hosanas, 
Quarteando o velho Camões; 
Mas guardemos as missões 
No próprio seio da história 
porque foram - berço e glória - 
Das mais caras tradições.

Parece até uma mentira 
Que alguns pesquisadores, 
Os eternos grã-senhores 
Dos julgamentos parciais, 
Tentem riscar dos Anais 
Da nossa história guerreira 
Toda região missioneira 
E com ela - os naturais.

Porque será que se calam 
Com referência ao nativo 
Que foi o fator ativo 
Na conquista missioneira? 
Porque toda essa ciumeira 
Que se nota por ai 
Se até uma bugra daqui 
Casou com Pinto Bandeira?

Não se compreende a essa altura, 
Tão ferrenha intransigência 
Ao filho desta querência 
De legendária memória. 
Pra que negar-lhe na história 
Lugar de preponderância, 
Se até o próprio peão da estância 
Riscou daqui a trajetória??

Pois quando Borges do Canto, 
Com pedroso e outros mais, 
Escaramuçava os baguais 
Na epopéia triunfante, 
Era o bugre ignorante 
Das reduções missioneira 
Que encabeçavam as fileiras 
Levando tudo por diante.

Guardemos ciosos os feitos 
De um José Borges do Canto. 
Conquistando este chão santo 
Com denodo extraordinário. 
Mas ninguém mande o contrário 
Que o índio seja exaltado 
Pois foi o maior soldado 
Deste feito legendário.

É ele que - em trinta e cinco, 
Luta - de um e de outro lado, 
Ê ele que, batizado, 
Nas barrancas do Uruguai, 
Deixa a querência e se vai, 
Com bravura e sacrifício, 
Hastear o pendão patrício 
Nos tchacos do Paraguai.

Monumentos a estrangeiros 
Hoje se vê em qualquer praça, 
Mas ao percursos da raça 
Não há a mínima lembrança, 
Nem ao pingo - nem a lança 
De taquara chamuscada 
Que foi a primeira espada 
Do meu Rio Grande criança.

Um dia - índio missioneiro 
Rio Grandense - pura flor. 
Nos te haveremos de por 
No trono a que tem direito. 
Ombro a ombro - peito a peito, 
Com Bandeira e Canabarro. 
Como tu do mesmo barro 
Do qual guasca foi feito.

Já não se escutam seus gritos 
Ao longo das sesmarias, 
Nem tampouco a algaravia 
Do tenebroso Pajé, 
Mas tu ficaste de pé, 
Tigre mortal das campinas, 
Na evolução de umas ruinas 
E no culto de Sepé.

E podes dormir tranqüilo 
Palanque inicial da história, 
Tu viveras na memória 
Tão Grande como teu sono 
E qual monarca - no trono 
Dos mais altos monumentos 
Gritarás aos quatro ventos: 
- Esta terra tem dono".

Marizandra Rutilli

Doutorando em Comunicação - UFSM

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