
A eleição para a presidência da Câmara Municipal de Ijuí voltou a escancarar a fragilidade dos acordos políticos firmados nos bastidores do Legislativo. Em dois momentos distintos da história recente da Casa, a mudança de posição do vereador Paulo Braga (PSD) foi decisiva para alterar o rumo de disputas internas e evidenciar uma prática recorrente dele de rompimento de compromissos assumidos com colegas e partidos.
O histórico é conhecido nos corredores da Câmara. No início da legislatura 2021/2024, então filiado ao PDT e integrante da oposição ao governo municipal, Paulo Braga tinha como candidata à presidência sua colega de partido, Alexandra Lentz. Contudo, de forma silenciosa, Braga e o vereador Matheus Pompeo votaram no candidato governista Jorge Amaral, que acabou eleito. O gesto contrariou frontalmente a posição partidária e foi sustentado por um acordo político que previa a ocupação da presidência da Casa pelos dois oposicionistas nos anos seguintes — Pompeo em 2022 e Braga em 2023.
O episódio revelou que a quebra de lealdade pode até render vitórias circunstanciais, mas cobra seu preço com o tempo. Reeleito após deixar o PDT e ingressar no PSD, Paulo Braga voltou a protagonizar novo rompimento político. Na primeira oportunidade, afastou-se novamente da orientação partidária para alinhar-se ao governo municipal, repetindo o padrão já conhecido.
Na eleição da presidência da Câmara para o ano de 2026, o vereador desconsiderou acordo firmado entre partidos aliados ao Executivo e tentou, mais uma vez, derrubar um colega de legenda. Com o apoio do prefeito, buscou inviabilizar a eleição do vereador Capitão Bischoff (PSD), dissidente da base governista. Diferentemente do passado, porém, a manobra não teve êxito. A derrota política sinalizou que, embora a traição possa se repetir, seus resultados nem sempre se confirmam.
É verdade que o voto parlamentar é, por princípio, livre e soberano. No entanto, a política institucional se sustenta sobre confiança, previsibilidade e o cumprimento da palavra empenhada. Quando acordos são rompidos de forma reiterada, o dano extrapola as disputas internas e atinge diretamente a credibilidade da Câmara perante a sociedade.
A repetição desse comportamento levanta questionamentos legítimos sobre coerência, lealdade partidária e responsabilidade com o eleitor. Mais do que definir vencedores ou derrotados em uma eleição interna, o episódio deixa como saldo um ambiente político fragilizado, no qual acordos passam a valer menos do que conveniências momentâneas — e onde a confiança, uma vez quebrada, torna-se difícil de reconstruir.
Abel Oliveira
Formando em Jornalismo