
Em 1626, segundo registros da História do Rio Grande do Sul, do Brasil e da América hispânica, espaços sob domínio da Espanha e, com algumas investidas de bandeirantes portugueses, foi fundada a Redução Missioneira de São Nicolau.
O ano de 2026 marca, portanto, os 400 anos daquela data e o Rio Grande do Sul comemora-a como um evento relevante de seu passado, de sua formação cultural, histórica, econômica. Inúmeros historiadores, como Sandra Jatahy Pesavento, afirmam que o gado criado no primeiro ciclo das Missões foi o motivo desencadeador para a ocupação, de fato, da Província (hoje, estado) mais meridional do Brasil.
De um modo geral, a História que nos é contada na escola costuma ser fragmentada e sequer abarca o primeiro ciclo missioneiro, que tem sido resgatado por pesquisadores do tema sob as mais variantes óticas.
Interessa-me, porém, inserir o meu município, grande em extensão territorial, mas sem relevância econômica no contexto estadual, Restinga Seca, na região central do estado, nesse cenário: os 400 anos das Missões.
No chamado segundo ciclo das Missões, quando foram fundados e funcionaram com sucesso, comercializando, principalmente, gado e erva mate com Buenos Aires, temos os Sete Povos das Missões, região conhecida e muito visitada, que se situa a noroeste do oeste.
Por que, então, um município na região central do estado? Em primeiro lugar, porque inúmeras investigações dão conta que as estâncias de criação de gado espalhavam-se por quase todo o território estadual – e notem que estou retirando de pauta a localização das Missões do primeiro ciclo. Há motivos para crer que essas estâncias estendiam-se até a região dos rios Vacacaí Mirim, Vacacaí Grande e Jacuí, que banham o município de Restinga Seca (como brincamos por aqui, quase uma Mesopotâmia, com seus vales férteis).
Um dado, contudo, com registros históricos, aconteceu, de fato, em território daquele que seria o município de Restinga Seca, na localidade que o comandante português, Gomes Freire, chamou de Passo Geral do Jacuí, quase na confluência entre os rios Vacacaí Grande e Jacuí.
Pelo Tratado de Madri, assinado em 1750, entre Espanha e Portugal, a Colônia de Sacramento, localizada às margens do rio da Prata e fronteiriça a Buenos Aires, fundada por portugueses, passava para o domínio espanhol. Por sua vez, os Sete Povos das Missões, sob
administração de jesuítas espanhóis, habitados por milhares de indígenas, se tornariam possessão portuguesa.
Quase que, de imediato, os padres reagiram e iniciaram negociações em Roma, Madri e Buenos Aires para que tal fato não acontecesse. Por seu turno, os indígenas mostraram-se contrários à ideia, eles não queriam abandonar as suas terras, as suas plantações, as suas casas, os seus mortos enterrados nos cemitérios locais.
Em seguida, teria início a Guerra Guaranítica, que oporia indígenas missioneiros e tropas espanholas e portuguesas. Nesse contexto, em setembro de 1754, tropas portuguesas comandadas por Gomes Freire de Andrade, que haviam partido de Rio Pardo, fortemente armadas, chegaram às margens do rio Jacuí, em seu caminho em direção à tomada das Missões.
Evidentemente, o deslocamento era lento, os caminhos eram difíceis, a passagem por rios – sem pontes, sem balsas – gerava dificuldades, mas ali, no Passo Geral do Jacuí, os portugueses foram surpreendidos por um grande grupo de indígenas missioneiros – os cálculos variam sobre o número de guerreiros, mas se concorda que estavam em grande número e aptos a receberem reforços.
Não cabe aqui descrever aspectos até mesmo pitorescos dos dias que se seguiram. A exceção talvez seja a cheia do rio Jacuí, que molhou mantimentos, equipamentos de combate, munições das tropas portuguesas, enquanto os indígenas permaneciam impávidos. Antes e depois da enchente, houve negociações entre as duas partes.
Finalmente, quando Gomes Freire, o comandante das tropas portuguesas, tomou ciência que os espanhóis ainda não estavam a caminho dos Sete Povos das Missões, a enchente não regredia e os indígenas impunham limites à continuação de sua caminhada guerreira, assinou um armistício com os comandantes guaranis.
Aceitou regressar a Rio Pardo, não voltar ao Passo do Jacuí em busca de caminho para os Sete Povos, entre outras questões. Em 18 de novembro de 1754, os portugueses partiram das margens do rio Jacuí, em um ponto em que o grande rio caudaloso, como o refere o poeta Basílio da Gama, delimitaria a divisa entre os municípios de Cachoeira do Sul e Restinga Seca.
A título de conhecimento: naquele ponto, o rio Jacuí ainda demonstraria a sua importância como local propício para travessia de tropas, tanto que, em 1849, o governo provincial mandaria erguer a Ponte sobre o Passo Geral do Jacuí ou Ponte do Império.
De qualquer sorte, um grande número de historiadores reconhece que o encontro entre Gomes Freire e os indígenas missioneiros no Passo do Jacuí pode ter sido responsável pela demora / o retardamento de dois anos que se estabeleceria até a tomada dos Sete Povos das Missões.
Dra. Elaine dos Santos
Professora aposentada / Revisora de textos