Resumo
O presente trabalho tem como enfoque a prática do professor da educação infantil e dos anos iniciais da educação básica e as mediações referentes à construção de conceitos e conhecimentos matemáticos. Abordando uma temática dinâmica e reflexiva no ensino da matemática, buscando o desenvolvimento integral do aluno através de metodologias que ampliam, aprimoram e estimulam o raciocínio lógico. Para tornar-se significativa a construção dos conceitos matemáticos, os educadores devem planejar intervenções e metodologias práticas que façam com que a criança vivencie situações que a leve a fazer comparações, experimentações e reflexões acerca do universo matemático. Sendo um desafio ao educador contemporâneo o estímulo e a motivação ao educandos para tornarem-se aptos a interpretar, compreender e decifrar as situações problemas, conseguindo levar esse conhecimento para além da sala de aula, utilizando o raciocínio lógico e sua cognição no meio em que está inserido.
Palavras chaves: Conhecimentos matemáticos. Ensino-aprendizagem. Professor mediador.
Abstract
The present work focuses on the practice of the early childhood education and the initial years of basic education by teachers and the mediations related to the construction of concepts and mathematical knowledge. Addressing a dynamic and reflexive thematic in the teaching of mathematics, seeking the integral development of the student through methodologies that amplify, improve and stimulate logical reasoning. In order to make the construction of mathematical concepts expressive, educators should plan their interventions and practical methodologies enabling the child to experience situations that lead them to make comparisons, experiments, and reflections on the mathematical universe. It is a challenge for the contemporary educator to stimulate and motivate learners to become able to interpret, understand and decipher problem situations, managing to bring that knowledge beyond the classroom using logical reasoning and their cognition in the environment in which they are inserted.
Key words: Mathematical knowledge. Teaching-learning. Mediatorteacher.
INTRODUÇÃO
Esse artigo parte das reflexões sobre as vivências de educadoras da rede municipal de educação de Ijuí-RS, referente a construção de conceitos matemáticos através das práticas cotidianas da educação infantil aos anos iniciais do ensino fundamental, visto que o processo de aprendizagem matemática inicia-se muito antes do ingresso da criança nos anos iniciais da educação básica. A matemática sempre se fez presente na vida humana, desde os primórdios e se perpetua com o passar dos tempos, sendo imprescindível em nossas atividades. A construção matemática se inicia com o nascer do sujeito e amplia-se no decorrer do seu desenvolvimento, partindo disso, acreditamos que o meio que o sujeito está inserido, seu contexto histórico, social, cultural, econômico, além das intervenções pedagógicas que recebe, são fundamentais ao seu desenvolvimento integral como ser humano, cidadão de direitos e deveres em uma sociedade na qual vive com seus pares. O processo de ensino-aprendizagem da matemática não é algo isolado, por tanto, as mediações matemáticas perpassam todas as áreas do conhecimento, bem como se completam. A criança também não constrói possibilidades, estratégias e reflexões isoladamente, ela é um ser integral que vai desenvolver e construir suas aprendizagens a partir dos estímulos e mediações que recebe do ambiente que está inserida, desta forma as mediações dos professores na escola são fundamentais para que com autonomia cada sujeito estabeleça relações expressivas entre os conhecimentos e assim aprenda a agir e interagir positivamente com os conceitos matemáticos estimulando cada vez mais seu raciocínio lógico.
METODOLOGIA
O presente trabalho partiu de reflexões de professoras da rede pública de ensino, sobre a prática pedagógica desenvolvida na educação infantil e anos iniciais do ensino fundamental, baseado nas mediações do docente contemporâneo levando em consideração a importância da matemática, contextualizando assim, práticas desenvolvidas em sala de aula.
REFLEXÕES DO PROFESSOR CONTEMPORÂNEO ACERCA DA MATEMÁTICA.
A educação infantil é o primeiro contato que as crianças terão com nosso sistema de ensino, essas vivências permearão toda sua trajetória escolar e farão parte da sua formação enquanto sujeito nas diversas áreas de atuação. O currículo formal da educação básica é organizado em etapas, que se completam e complementam no decorrer da caminhada escolar. A educação infantil, primeira etapa de nossa jornada assume o papel de alicerce, para as etapas seguintes, mostrando-se uma parte fundamental para a vida escolar.
A educação infantil teve sua importância reconhecida depois de uma longa jornada, e agora se sabe que ela facilita e fortalece as relações do conhecimento. É através dela que se iniciará sistematicamente a interação, a socialização e a formulação do conhecimento escolar, afinal como nos diz o referencial para educação infantil do MEC “A criança, como todo ser humano é um sujeito social e histórico e faz parte de uma organização familiar que está inserida em uma sociedade, com uma determinada cultura, em um determinado momento histórico [...]” (RCNEI, 1998, Vol. I, p. 21), sendo assim, a criança já traz consigo várias informações, e o papel da escola neste contexto é o de contextualizar os conhecimentos trazidos pela criança e estimular seu desenvolvimento.
Observa-se, então, que a educação infantil oferece grandes contribuições para a formação das crianças, bem como para seu melhor desempenho nas etapas seguintes da educação básica. É sabido que conhecimento matemático é mais do que simplesmente contar (embora a contagem seja importante para a concepção de número), e que os conceitos matemáticos aprendidos na educação infantil serão de extrema importância na vida escolar e cotidiana dos educandos, sendo a base para os anos iniciais do ensino fundamental.
Constatamos dentro das nossas práticas cotidianas que contar, medir, calcular, comparar, resolver problemas, são ações que as crianças já efetuam informalmente em seu dia a dia, desta forma, cabe ao educador possibilitar o aprimoramento desses conhecimentos, instigando a curiosidade e oferecendo situações e experimentaçõespara construir e conceituar os saberes. Dante nos mostra duas razões para realizarmos um trabalho voltado para o ensino da Matemática na Educação Infantil:
Ela desenvolve na criança o raciocínio lógico, a sua capacidade para pensar logicamente e resolver situações-problema, estimulando sua criatividade. É útil para a vida diária da criança, pois, mesmo inconscientemente, ela está em contato permanente com formas, grandezas, números, medidas, contagens etc. (DANTE, 1996, p. 18).
Dois pontos principais podem ser expostos a partir da fala de Dante: estimular o raciocínio lógico e ser útil para a vida diária. Quando pensamos logicamente sobre qualquer assunto, aumentamos a probabilidade de acertos e resoluções. As crianças não conseguem pensar logicamente se não forem aguçadas para tal prática. O ensino na escola deve propiciar aos discentes meios para instigar seus pensamentos. “A criança que aprende pensando adquire um instrumental importante que lhe servirá por toda a vida” (CARRAHER, 2000, p. 32).
No ensino da matemática, tanto na educação infantil quanto nos anos iniciais, a criança deve partir da situação prática para depois chegar à teoria, o fazer é instrumento necessário no desenvolvimento da criança, pois quando ela age sobre o objeto de conhecimento deixa de ser mera receptora tornando-se agente protagonista da sua ação sobre o conhecimento. Propondo a resolução, e também a elaboração de problemas, estimulamos diferentes formas de raciocínio fazendo com que o aluno planeje, reflita e execute situações matemáticas, utilizando suas habilidades cognitivas levantando hipóteses, lançando mão de estratégias pessoais a fim de chegar ao objetivo. O professor contemporâneo deve apresentar problemas que estejam no nível de seus alunos, problemas que eles consigam solucionar sozinhos e outros que precisam ser resolvidos em grupos ou até mesmo por meio de pesquisa; assim os discentes estarão desenvolvendo sua autonomia e independência e também aprimorando sua interação com o grupo, proporcionando assim, troca de experiências. Para Neto, 2001, p. 191:
[...] O problema não é rotina, mas também não pode ser impossível: é proximal. Os problemas fazem dar um passo à frente. Alguns são proximais para o aluno e ele pode resolver sozinho na sala ou em casa, promovendo a própria maturação. Outros são muito difíceis para o aluno, mas são proximais para o grupo de alunos, promovendo maturação e socialização. Nos problemas, a Matemática passa a ser um meio e não um fim. É o momento da troca de ideias, da discussão, da defesa de ideias, mas aprendendo a abandoná-las, se for necessário [...]
Uma proposta de trabalho pedagógica com a matemática envolve muito mais do que somente contar, quantificar e calcular. Ela deve instigar a criança a pensar, perceber e demonstrar curiosidade a cerca dos conhecimentos matemáticos, adquirindo diferentes formas de perceber a realidade, possibilitando situações de aprendizagens que desenvolva o pensamento lógico e autonomia tanto no individual como no coletivo. Cabe assim aos educadores em sua prática atuar mediando o conhecimento formal, e conduzir o processo de ensino aprendizagem promovendo aos alunos construções internas motivadas e mediadas tanto de maneira intrínseca como extrínseca, tornando eles capazes de fazer inferências a cerca do que está lhe sendo apresentado onde possadescobrir, interagir e produzir através de brincadeiras, jogos, manipulações e levantamento de hipóteses, leitura e escrita, construindo e reconstruindo saberes.
As metodologias utilizadas e as mediações que o professor planeja e desenvolve são fundamentais para que a criança se aproxime do universo matemático para que se torne significativo e que de fato ocorra a aprendizagem. De acordo com oliveira (2012, p.13):
O professor exerce um papel de suma importância como agente de mudanças e formador de opiniões e caráter ao longo da vida do aluno. Ele poderá despertar simpatias e antipatias pela disciplina, causar traumas e dificuldades de aprendizagem ao longo da vida escolar, deixando marcas registradas no desenvolvimento futuro do aluno. Todavia sua presença e atuação pode despertar o prazer em aprender.
Assim, é importante ressaltar que as estratégias pedagógicas utilizadas pelo professor aproximam ou afastam, instigam ou aniquilam a curiosidade frente aos conceitos estudados, cabe então ao docente alicerçar sua prática de uma forma que instigue a participação efetiva das crianças, fazendo com que cada um se sinta parte integrante e essencial do processo de ensino-aprendizagem, motivando a estabelecer relações importantes para o alcance do conhecimento esperado.
Ao ingressar nos anos iniciais do ensino fundamental a criança vem repleta de conhecimentos, construções e vivências experienciadas até então, seja com a interação com o meio em que está inserida ou nas vivências que teve na educação infantil. Muitos conceitos básicos já estão se estruturando no raciocínio lógico matemático e precisam ser considerados quando a criança começa os anos iniciais. É interessante propor aos alunos atividades que permitam a iniciativa para que se sintam capazes de vencer as dificuldades com as quais se deparam. Estimular a criança a controlar e corrigir seus erros, seus avanços, também a rever suas respostas, possibilitando a ela descobrir onde falhou ou teve sucesso e porque isso aconteceu.
Uma boa estratégia para as mediações do professor contemporâneo é o trabalho com jogos nas aulas de matemática, esta é uma forma de propiciar aos educandos um contexto significativo de aprendizagem, que ocorre de forma mais eficiente quando os alunos constroem seu conhecimento a partir de um processo ativo, determinando relações e dando significados. São diversas as formas de utilização dos jogos em sala de aula, com uma variedade de conceitos a serem explorados, cabendo ao educador planejar o melhor momento para utilizá-los. Os jogos permitem ao sujeito comunicar-se, levantar hipóteses, desenvolver estratégias, reagir diante do imprevisto, tomar decisões e mobilizar seus conhecimentos para solucionar um problema, conceitos importantes que permeiam a vivência da matemática ampliando o universo do aluno.
Na escola, o jogo assume uma finalidade educativa, deixando de ser apenas lúdico, e passa a ser utilizado como um método para o ensino/aprendizagem da matemática. Como nos diz Reameet al, através dos jogos nós exploramos diversas noções matemáticas: quantificação, comparação de quantidades, grandezas, operações e figuras geométricas.Mas para o jogo ser um instrumento de aprendizagem é necessário que o professor tenha uma intencionalidade quanto às noções matemáticas que serão trabalhadas.
Outro recurso possível de ser explorado de maneira dinâmica é utilizar literaturas as aulas de matemática, sendo assim, uma forma de fugir do ensino tradicional, proporcionando aos alunos uma maneira de explorar os conceitos matemáticos em conjunto com a história. Possibilitando aos educandos que realizem ligações entre a linguagem materna, a linguagem matemática e a vida real, favorecendo o desenvolvimento de competências para formulação e resolução de problemas, ao mesmo tempo em que expandem noções e conceitos matemáticos. Sendo assim, a associação das literaturas com o ensino na matemática fundamenta-se na ideia de que as duas potencializam habilidades de interpretar, analisar e sintetizar. Como a leitura é uma atividade que exige compreensão e comunicação, ela auxilia os alunos a refinar, elucidar, ordenar e sistematizar seus pensamentos, desta forma, contribui pra a interpretação na interpelação e na resolução de problemas matemáticos, favorecendo a significação da linguagem matemática.
Segundo Smole, Cândido e Stancanelli, 1999:
Quando abordamos os problemas-padrão com único material para o trabalho com resolução de problemas na escola, podemos levar o aluno a uma postura de fragilidade diante de situações que exijam criatividade. Ao se deparar com um problema que não identifica a operação a ser utilizada, só lhe resta desistir e esperar a resposta do professor ou de um colega. Algumas vezes ele resolverá o problema mecanicamente sem ter entendido o que fez e não será capaz de confiar na resposta que encontrou, ou mesmo de verificar se ela é adequada aos dados apresentados no enunciado.
É desafio de o educador tornaros educandos aptos a interpretar, compreender e decifrar os problemas que lhe são propostos, assim, mesmo quando for uma situação com a qual não estão familiarizados, conseguirão, utilizando seu raciocínio lógico e sua cognição, solucioná- los. As ideias matemáticas não são construídas de uma hora para outra, acontecem em um processo gradativo, por isso a importância de se trabalhar a matemática ao longo de todo o ano, inclusive de um ano para o outro em todos os anos da educação básica. Desta forma, percebemos que a compreensão matemática requer um permanente processo de dinamização, assim a criança terá a oportunidade de interagir com o objeto de conhecimento, estabelecendo relações, solucionando problemas e fazendo reflexões para desenvolver noções matemáticas cada vez mais complexas, avançando assim, em seus conhecimentos.
CONSIDERAÇÕES FINAIS
A prática pedagógica voltada para a matemática na educação infantil e nos anos iniciais exige do educador competências e habilidades para além dos conteúdos escolares, fazendo com que as mediações desenvolvidas sejam significativas e tenham o aluno como protagonista do seu conhecimento. No cotidiano escolar não basta meramente apresentar às crianças os conteúdos específicos, é preciso instigar individualmente e no coletivo a curiosidade e a satisfação em aprender, tornando o aluno agente de sua aprendizagem. Essa é uma abordagem que nos desafia, desacomoda e ao mesmo tempo nos motiva a desenvolvermos nossa prática pedagógica diariamente. Tornando-nos assim cada vez mais competentes, reflexivos e críticos, sobre nossas práticas e como ela afeta integralmente o desenvolvimento dos nossos alunos.
REFERÊNCIAS
BRASIL. Referencial Curricular Nacional para a Educação Infantil: Introdução. Brasília: MEC/ SEF, 1998, v. 1. CARRAHER, Terezinha Nunes (org.). Aprender pensando: contribuição da psicologia cognitiva para a educação. 14ª ed. Petrópolis: Vozes, 2000. DANTE, Luiz Roberto. Didática da matemática na pré-escola. Série educação. São Paulo: Ática, 1996. NETO, Ernesto Rosa. Didática da matemática. Série educação. 11ª ed. São Paulo: Ática, 2001. OLIVEIRA, Rosiele Juvino. O bom professor de matemática segundo a percepção dos alunos do ensino médio. Disponível em https://www.ucb.br/sites/100/103/TCC/12007/RosieleJuvinodeOliveira.pdf acesso em 13/05/2017. REAME, Eliane et al. Matemática no dia a dia da educação infantil: rodas, cantos, brincadeiras e histórias. São Paulo: Saraiva, 2012. SMOLE, Katia Cristina Stocco; CÂNDIDO, Patricia; STANCANELLI, Renata. Matemática e literatura infantil. 4ª ed. Belo Horizonte: Editora Lê, 1999.
Franciele Novaczyk Kilpinski Borré
Suelen Suckel Celestino
Professoras da Escola Municipal Fundamental Davi Canabarro Ijuí/RS