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A quem culparemos?

Por, Elaine dos Santos - Professora | Doutora em Letras

Matéria Publicada em: 06/11/2018

Quem convive comigo, sabe que, desde a adolescência, sempre tive problemas para conviver e dialogar com quem desconhece os fatos, mas quer emitir opinião sobre eles. Cunhei uma definição para isso: intolerância à ignorância.

Cumpre esclarecer o sentido etimológico da palavra ignorância, que provém do latim “ignorantia”, derivada de “ignorare”. A palavra é composta por um radical “ig” (ou “in”, que equivale a uma negação) e por “ganrus”, que significa “aquele que domina um conhecimento, um sabedor”, logo ig + ganrus = aquele que desconhece, ignora, não sabe.

Como professora, em sala de aula, ensinando língua portuguesa e literatura, sempre parti do pressuposto que o meu aluno detinha um saber, o saber empírico, adquirido na convivência diária, ele sabia expressar-se em português, ainda que não fosse a variedade culta, mas o simples fato de estar na escola ou no curso de graduação demonstrava que ele queria saber mais. Na condição de educadora, cabia-me ensinar-lhe mais, desvendar-lhe novos universos, fazer-lhe superar o desconhecimento, transcender a ignorância que lhe era inerente. Sempre conto que houve dois momentos particularmente radiantes em sala de aula. Na segunda série do ensino médio, analisando o romance “O cortiço”, de Aluisio Azevedo, um aluno disse-me: “Mas nessa história somente os brancos se dão bem”, ele estava inferindo pela sua leitura que, naquele momento sócio-histórico estava em alta a teoria do branqueamento da raça proposta por autores como Nina Rodrigues e Silvio Romero. Em outra ocasião, ao proceder ao estudo de “Os sertões” e às precárias condições de vida do sertanejo, um aluno da terceira série do ensino médio ponderou: “Mas então a senhora está dizendo que sempre houve seca no nordeste e todos os milhões investidos lá nunca serviram para nada. Tem alguma coisa errada acontecendo com esse dinheiro!” Ele estava analisando a realidade social e política do país, fazendo-o a partir de uma obra literária. Ler, analisar, interpretar textos literários permitira àqueles alunos compreender a sociedade que engendrara aquelas obras e relacioná-las com a sociedade do nosso tempo. Isso era emancipador.

Pois bem, ciente, com Umberto Eco, que as redes sociais deram voz a todo tipo de indivíduo, confesso que ainda tenho dificuldade para assimilar os posicionamentos adotados por algumas pessoas nessas mesmas redes sociais. Quando o meu carro, por exemplo, apresenta problemas mecânicos, eu procuro uma oficina, um profissional confiável, chego lá e digo: “Olha, está com um som estranho, notei ontem e te entrego o carro, porque não faço a mínima do que se trata”. Evidencio, com clareza, o meu desconhecimento, a minha ignorância sobre o assunto, legando a um profissional que, em tese, detém formação técnica para identificar a questão e equacioná-la. Respeito o conhecimento adquirido por aquele sujeitoe pago – sem regatear – o que me é cobrado.

Indago-me, porém, por que, com tanta veemência, as pessoas “atiram-se” a emitir opiniões, pareceres sobre a atividade docente? Elas desconhecem, são, portanto, ignorantes sobre o assunto, não sabem como funciona uma escola (direção, supervisão, Conselho Escolar, CPM, vinculações com a Coordenadoria Regional de Educação, eventuais relações com a Promotoria Pública); nunca ouviram falar sobre teorias de aprendizagem: o que sabem sobre behaviorismo, qual a noção que têm sobre Piaget, Vigotsky, Leontiev, Ausubel? Quanto tempo dedicaram-se a ler sobre Psicologia da Educação, Psicologia do Desenvolvimento, Filosofia da Educação? Além de não conhecer o universo em que tentam imiscuir-se, falta-lhes humildade para perguntar – uma mulher disse-me, dias atrás, referindo-se às teorias da aprendizagem, que existem outras teorias, outras leituras: quais? Será que alguém ocultou-nos, a todos os professores, um saber que só essa mulher domina?

Professores têm um baixo salário, incompatível com a sua carga horária; a formação inicial deixa a desejar, a formação continuada nem sempre é satisfatória; as condições laborais na maioria das escolas são precárias, ainda assim, há educadores esforçando-se, cumprindo jornadas extenuantes, assumindo responsabilidades “terceirizadas” por pais que não assumem a sua própria paternidade. Confesso que me preocupa o rumo que as coisas estão tomando, penso que a família vem falhando significativamente em seu papel formador: e se os professores começarem a cansar, se desistirem, que gerações futuras estaremos gestando? E se o caos social instalar-se, a quem culparemos?

Elaine dos Santos

Professora | Doutora em Letras

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