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O perigo de não pensar o mundo

Por, Guilherme Kuhn | Advogado Criminalista

Matéria Publicada em: 02/10/2019

(Quadro feito pela arteira, minha mãe, Ivana Espíndola Kuhn)

Há cerca de dois anos, entristecidamente, não logrei êxito em me matricular no curso de graduação em Filosofia na UNIJUÍ, por um fulminante motivo: este curso não é mais ofertado.

Buscando alternativas para a inexistência de graduação em Filosofia, há cerca de um ano e uns quebrados, então, matriculei-me no curso de graduação em Psicologia na UNIJUÍ (atualmente suspenso em razão do mestrado). Foi amor à primeira vista. Trabalha, também, muito com a Filosofia. Os professores são ótimos. Recomendo à todos.

Há poucos dias, conversando com uma querida amiga, falávamos sobre a existência de uma aspecto místico, cativamente, sobre trabalhar com investimentos, bolsa de valores e de quão interessante deve ser o curso de graduação em Economia. Bem, adivinhem? O curso de graduação em Economia não mais é ofertado pela nossa querida UNIJUÍ. Parece que faltam alunos interessados.

Hoje, 02 de outubro de 2019, pela manhã, conversando com a minha querida mãe sobre questões filosóficas, falávamos sobre a importância da Filosofia e da Economia, pois servem de base para diversos outros cursos, ciências, matérias etc.

Hoje, pela manhã, a minha mãe - que nutre uma habilidade invejável para o desenho, para a arte -, inconformada, comentou: e Artes?

Bem… O curso de Artes também não é mais ofertado pela nossa UNIJUÍ.

Artes, Economia e Filosofia: faltam alunos, faltam interessados e faltam cursos de graduação. Em que pé anda a nossa sociedade?

A Filosofia e a Arte são - simplesmente - mães! Deram origem aos mais variados pensamentos, às mais diversas ciências e matérias!

A Filosofia constitui uma visão de mundo, um modo de pensar a vida, de perceber os acontecimentos, os fenômenos da vida. A Filosofia é uma sabedoria da vida. Um amiga da sabedoria - e não a dona dela.

O que é o mundo? O que é a verdade? O que é felicidade? O que é o tempo? O que é amor? Qual a dimensão do amor? É universal, igual para todos?

O mundo é igual para todos? O percebemos de maneira idêntica? A mesma luz, é percebida da mesma maneira, por quatro pessoas? Uma partida de futebol é interpretada da mesma maneira por todos os torcedores?

O modo como as pessoas lidam com o sofrimento, com o amor, com a perda, com o ódio, é igual para todos? Ou cada sujeito possui uma percepção dos fenômenos da vida peculiar, individual, inigualável?

O que é o mundo para o médico? E para o Juiz de Direito? E para o sujeito dependente químico

Pertinente às reflexões despertadas por Clóvis de Barros Filho e Pedro Calabrez, na obra intitulada de “Em busca de nós mesmos”:

Seria o mundo aquilo que vemos, que enxergamos, que assistimos, que escutamos, ou ele é “simplesmente” o mundo?

Se o mundo fosse somente aquilo que somos capazes de enxergar, então ele não existiria para o cego? Igualmente, se o mundo fosse aquilo que ouvimos, o surdo não faria parte dele?

O que é o mundo (BARROS FILHO; CALABREZ, 2017)?

Sem sombra de dúvidas, ele é muito mais do que isso: é o conjunto de tudo! (mas tudo o quê? bem, tudo…!).

Nesta linha, pode-se dizer que não existe apenas um mundo, no singular, igual para todos, assim como inexiste uma única realidade.

Ao contrário: quando alguém fala de mundo ou de realidade nada mais faz do que falar sobre a sua percepção de mundo e da sua realidade, a partir de suas condições interpretativas (BARROS FILHO; CALABREZ, 2017).

Noutros termos, à cada um corresponde uma realidade diversa: a sua e de ninguém mais, simplesmente porque todos somos diferentes.

Ora, sentimos de maneira diversa. E sentir é algo complexo: não existe uma dosagem universal de amor, de ódio, de liberdade, de prazer ou de insegurança para que as pessoas sintam os sabores e dissabores da vida de modo idêntico e invariável.

E isso tudo é Filosofia (mas não só). E não deixa de ser Arte.

A Arte, por sua vez, simplificadamente, possibilita a expressão das emoções humanas, o que cada um sente em seu íntimo, a compreensão da história e da cultura, inclusive, através de valores estéticos, como beleza, harmonia, equilíbrio. A Arte, não raro, foi utilizada no âmbito da Psiquiatria para o enfrentamento das mais diversas patologias. Na Arte estão, por exemplo, a pintura, os quadros, a escultura, os desenhos, a música, o cinema, a dança, a poesia etc.

Os fenômenos de imagem e luz, exemplificativamente, podem ser utilizados nos mais diversos ramos e profissões. Em minha profissão (Advocacia), eu trabalho muito com a Arte, com a Psicologia e com a Filosofia, através do emprego de metáforas, de analogias, de questionamentos, de reflexões e, inclusive, utilizando o poder da imagem e da luz em petições. A Arte individualiza e pluraliza as pessoas.

Mas será que o aprofundamento nestas questões, a existência de cursos de graduação, para o aprimoramento da sociedade, não é de suma importância?

Admiramos os gregos, exaltamos os alemães, os pensadores franceses. Estudamos e inspiramo-nos nos clássicos! Bem… e nós?

Veja-se como o desprezo à Filosofia, à Arte e à Economia são problemas sociais e culturais (especialmente com relação à Filosofia e à Arte).

O que diriam os pais para um filho que, ao invés de ser médico, comunica-lhes que deseja ser Filósofo? Poeta? Pintor? Escritor? Normalmente, tentam dissuadi-lo da ideia, cortam suas asas, argumentando que “não vai ganhar dinheiro” e se tornará um “vadio”.

Nós - amigos, familiares, conhecidos, professores, mentores, governantes, políticos, enfim, a sociedade - podamos, suprimimos e impedimos o surgimento de nossos próprios artistas, filósofos, escritores, poetas, enfim. E isso há muitos e muitos anos.

E a Economia? Não é importante compreender como o mundo econômico funciona? Compreender a história da economia, a formação de classes? Como o dinheiro gira? Qual a lógica do capital? Como empreender? Como investir? Como administrar o seu dinheiro? Quantas pessoas estão endividadas? Quantas pessoas optam pelo suicídio em razão de suas dificuldades financeiras?

Façam uma pesquisa. Em nossa região, ao menos, há escassez de cursos relacionados à Filosofia, à Arte e Economia.

Não podemos nos esquecer que o Amanhã vem aí. E, como advertem os cientistas, a tecnologia vai ocupar o lugar de muito trabalhador (humano). Mas sempre existirão os insubstituíveis, que se recusam ao trabalho mecânico, que ousam questionar e inovar.

Eis o perigo de não pensar o mundo. Não andamos bem. A arte é inerente ao ser humano; robô nenhum pode se apropriar.

Guilherme Kuhn

Advogado, especialista em Advocacia Criminal, mestrando em Direitos Humanos, pós-graduando em Filosofia.

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