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Você tem lado?

Por, Elaine dos Santos | Professora Doutora em Letras (UFSM)

Matéria Publicada em: 12/03/2020

Em 1822, quando o Brasil tornou-se politicamente independente de Portugal, os nossos intelectuais entenderam, de pronto, que era preciso estabelecer caracteres definidores de nossa nacionalidade que nos diferenciassem da antiga Metrópole. Para isso, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro instituiu um concurso para eleição do melhor manual sobre como escrever a História do Brasil. O alemão Karl Phippe Von Martius apresentou, em 1843, Como se deve escrever a História do Brasil”, que deveria servir como paradigma para escritura da nossa História oficial.

Contudo, coube a Literatura o papel dominante na fixação da nossa nacionalidade, sob a influência do francês Ferdinand Denis e do português Almeida Garret que sugeriam o aproveitamento da natureza peculiar e do habitante autóctone, impropriamente chamado índio. Assim, os dois maiores expoentes dessa corrente nacionalista seriam o poeta Gonçalves Dias e seu clássico poema “Canção do exílio” e o prosador José de Alencar, que, no prefácio a “Sonhos d’Ouro”, especifica o seu projeto calcado nos registros urbano, regionalista, histórico e indianista. A Literatura lançara-se, desse modo, em favor dos ideais monárquicos, cumprindo um papel ideológico de ancoragem ao ideário vigente.

Por seu turno, os escritores realistas, como Machado de Assis – e é paradigmático, neste sentido, o romance “Esaú e Jacó” – concederam o lastro necessário para a implantação da República. Não se perca de vista – jamais! – os intensos debates travados em jornais e estou, neste caso, referindo-me a nomes da estatura de Joaquim Nabuco e Ruy Barbosa.

Outro período emblemático em nosso país diz respeito aos governos de Getúlio Vargas e, em particular, aos grandes esforços empreendidos pelo jornalista Carlos Lacerda para depô-lo, o que teria começado em 1931, quando Lacerda uniu-se a outros comunistas para planejar marchas de desempregados em Santos e no Rio de Janeiro com vistas a desestabilizar o governo. Agregue-se que Carlos Lacerda também participou da Intentona Comunista em 1935. Em 1949, Lacerda fundou o jornal “Tribuna da Imprensa” e, no ano seguinte, trabalhou para impedir a candidatura Vargas à presidência do país. Vargas, como se sabe, foi eleito. Mas Lacerda manteve-se veementemente como seu opositor. Em 05 de agosto de 1954, em Copacabana, na rua Tonelero, o major-aviador Rubens Florentino Vaz foi assassinado num atentado que teria sido planejado contra Lacerda, havendo fortes indícios que Gregório Fortunato, chefe da guarda pessoal de Getúlio Vargas seria o mentor do atentado. Pressionado, por este e outros acontecimentos, Getúlio Vargas saiu da vida para entrar para a história em 24 de agosto de 1954.

Ainda que me restringido a três exemplos, o que tentei mostrar é que sempre houve instrumentos que mais ou menos balizaram a opinião pública. As nossas posições políticas e ideológicas sofrem a interferência das nossas relações pessoais, das leituras que fazemos, dos programas televisivos que assistimos, enfim há uma gama enorme de elementos que confluem para “montar” o que somos e o que pensamos. O que tenho me perguntado nos últimos tempos é: com tantas formas de informar-se, por que as pessoas ainda demonizam A e idealizam B (ou vice-versa), será que alguém ainda imagina que exista imparcialidade de algum lado (se existe UM lado é porque existe OUTRO lado, por que algumas pessoas negam-se terminantemente a olhar os dois lados da “moeda”)? Cumpre lembrar que um sinônimo possível para a palavra lado é facção!

Elaine dos Santos

Professora Doutora em Letras (UFSM)

Brito lateral 2020