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A importância de "parar" e o Covid-19

Por, Guilherme Kuhn - Advogado Criminalista

Matéria Publicada em: 20/03/2020

Com meus quase 28 anos de idade, não me considero jovem, tampouco velho; mas sofro de sentimentos nostálgicos há um bom tempo e, se existe uma questão que venho discutindo com amigos - e que tenho percebido no âmbito familiar e social - é o desaparecimento da expressão tédio; ou daquela expressão que era comum, da resposta fornecida por alguém: “não estou fazendo nada”.  

Atualmente, normalmente, ao se formular a pergunta: “o que você está fazendo?”, mesmo que a pessoa não esteja fazendo “nada”, a resposta tende a ocultar a situação, a desviar/se esquivar do ato de “nada fazer”; sempre estamos fazendo alguma coisa. Não suportamos mais o “não fazer nada”. 

O filósofo Byung-chul Han (2017) denuncia a preocupante realidade da sociedade moderna, a nossa sociedade do desempenho; trata-se de uma realidade de auto-cobrança, onde o próprio sujeito se torna o seu próprio carrasco, o seu opressor; o indivíduo "passa a explorar  si mesmo", impõe a necessidade (de si para si) de trabalhar o máximo possível, de produzir a todo tempo, a todo instante, a todo momento, até o ponto de esgotar-se emocionalmente e, sem atingir os seus objetivos, como o carrasco de si mesmo, julga-se culpado e impõe a si a penalidade: a ansiedade, a hiperatividade, a depressão, o esgotamento físico e mental ligado à profissão (burnout) etc. 

Nas palavras de Byung (2017, p. 24-25 e 49-50),  

“a sociedade moderna é uma sociedade do desempenho, onde a coerção cedeu espaço à autocoerção do sujeito, que imagina ser livre; ‘é uma sociedade de autoexploração. O sujeito de desempenho explora a si mesmo até chegar a consumir-se totalmente (burnout), e assim há o surgimento da autoagressividade, que vai se intensificando e, não raro, leva ao suicídio. 

(...). 

A vida nunca foi tão transitória quanto hoje em dia; não há nada que prometa duração e persistência, durante a falta de ser, o que surge é o nervosismo.’ Assim, aparece a hiperatividade, a aceleração do processo de vida como alternativa para sair do “vazio que anuncia a morte. Mas uma sociedade dominada pela histeria de sobreviver é uma sociedade de mortos-vivos que não conseguem nem viver nem morrer.” 

Byung, com razão, aponta-nos uma sociedade intolerante ao tédio; criamos uma intolerância ao tédio: 'não suportamos não fazer nada'; esquecemo-nos que o "nada fazer", o "parar", o "desacelerar" são atos de grande importância, essenciais à saúde do ser humano;

Esta pandemia do COVID-19 (o Coronavírus), com a necessidade de parar (que é ignorada, infelizmente, por muitos - "que não suportam não fazer nada”), com a necessidade de isolamento e de cuidar de si - para assim, paradoxalmente, cuidar do "Outro" - serve de advertência; serve para recordar da importância do "parar", da importância da contemplação do mundo, do "olhar para si", para os amigos, para a família… 

Mas olhar somente para os "nossos" não basta, precisamos olhar e considerar o "Outro" também: serve para lembrar da importância da empatia e, primordialmente, serve para lembrar-nos da importância do "desacelerar", especialmente em tempos onde a vida é tão veloz, rápida, instantânea (mormente com o avanço da tecnologia), tão acelerada: os dias passam, as semanas, os meses, os anos e “não se nota”... “puxa, como passou rápido”... quando se percebe, a vida foi que passou! Logo, serve de advertência para focar naquilo que realmente importa: viver... Simplesmente viver...e aproveitar a vida, antes que a vida passe, que tudo passe.  

Guilherme Kuhn 

Advogado Criminalista 

Brito lateral 2020