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O que é certo e o que é errado?

Por, Elaine dos Santos | Professora Doutora em Letras (UFSM)

Matéria Publicada em: 28/04/2020

Recentemente, travou-se uma discussão sobre as fotos publicadas pela influencer Rafa Kalimann, que esteve na África, naqueles roteiros conhecidos, ironicamente, por “white savior” (branco salvador). Trata-se de um tipo de viagem, que movimenta um comércio milionário, em que turistas tiram fotos com crianças pobres e postam em suas redes sociais, vestem-se com roupas de safari e visitam zonas de pobreza. Parece-me algo totalmente sem noção, tanto que já se cunhou a expressão “Barbie savior” ( Barbie salvadora).

Li que a Academia Noruguesa de estudantes e acadêmicos internacionais elaborou uma cartilha apontando algumas normas de convivência para evitar tais comportamentos. Eles lembram, por exemplo, que pessoas não são atração turística, pedem bom senso e insistem naquela velha máxima “tente colocar-se no lugar do outro”, o que você não quer para si, provavelmente, não deveria exigir que o outro aceitasse.

Um dos aspectos que chama a atenção entre os “brancos salvadores” é a sua idade, eles são jovens, pode-se até afirmar que são extremamente jovens. Eles, portanto, têm pouca experiência de vida, mas se imaginam detentores da verdade (que atire a primeira pedra quem, em sua juventude, não imaginou que revolucionaria o mundo com as atitudes mais intempestivas calcado em suas verdades absolutas!).

A reflexão que tracei aqui faz parte de um esforço pessoal para tentar entender a rejeição por parte de uma parcela da sociedade brasileira ao distanciamento social. Evidentemente que consigo admitir fatores culturais, históricos, circunstanciais, políticos – e, desde ontem, com base na leitura de considerações tecidas por um psicanalista, a partir do texto “Além do princípio do prazer” de Freud, até mesmo consigo conceber que haja pulsões de vida e morte embutidas nessas atitudes (pulsões que são entendidas, neste contexto, como ordenamento, sujeição, masoquismo etc.), ainda assim, penso que seja possível compreender que, entre os mais novos, esteja uma incapacidade de entendimento do que significam doença e morte.

Quando a minha mãe faleceu, eu tinha 24 anos e a minha morte estava distante no horizonte; quando o meu pai faleceu, eu tinha 48 anos e a minha morte era algo bem mais próximo no meu horizonte, as minhas concepções sobre vida e morte tinham se transformado. Afirmo com isso que as experiências da vida – as perdas, as frustrações (assim como acertos, vitórias, alegrias) – concedem aos mais velhos, amadurecidos, um novo olhar sobre as coisas, sobre os fatos. Grosso modo, deixamos de ser inconsequentes.

Dois senões: por que idosos insistem em não manter o isolamento? Pelo sim, pelo não, a morte pode ser hoje, amanhã, semana que vem, mês que vem, o que lhes parece significativo é terem a percepção que cumpriram a sua missão e vivem uma fase de contemplação. Por que alguns maduros, muitos entre os grupos de risco, insistem em não manter o isolamento? Creio que muitos gostariam de estar em casa, mas a luta pela sobrevivência empurra-os para o meio externo. Contudo, há uma parcela que sofre de um mal que se alastrou entre nós, do latim “ignorantia, ae”, ignorância não é burrice, mas falta de conhecimento. As pessoas não detém conhecimento sobre os efeitos nefastos da Covid-19 no organismo humano (já se sabe que causa até mesmo AVCs); elas não conhecem, por dentro, o sistema de saúde público e ignoram que podem “ficar na fila”, em desespero, com dificuldades para respirar, mas haverá excesso de pacientes para poucos leitos de UTI e respiradores; elas desconhecem que a convalescença dos casos de Covid-19 é solitário, mães não podem cuidar de seus filhos, filhos não podem cuidar dos seus pais. Agregaria, por fim, um item: parece que perdemos o respeito pelo outro (aquele mesmo outro exposto em fotos dos “brancos salvadores”), uma vez que se ignoram (ou menosprezam) os relatos de cansaço, sofrimento, angústia, medo entre médicos, enfermeiros, técnicos de enfermagem, servidores de hospitais, samuzeiros, técnicos funerários, coveiros. Desrespeita-se, além disso, o outro que se cuida, que mantém o distanciamento social, que usa máscara e que pode estar fadado a morrer pela irresponsabilidade daquele que acredita tratar-se de uma grande conspiração armada pelos marcianos para dominar o planeta Terra.

Elaine dos Santos

Professora Doutora em Letras (UFSM)

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