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Em prisão domiciliar, sem ter cometido crime

Elaine dos Santos, Professora Doutora em Letras, faz uma ananlogia do isolamento regrado ao cárcere.

Matéria Publicada em: 21/01/2022
Elaine dos Santos.

Tenho 57 anos, tenho baixa imunidade, sou depressiva e hipertensa – e, por causa disso, cardiopata. Em 13 de março de 2020, a médica hematologista pediu-me que, diante da decretação da pandemia, “sumisse”, procurasse fazer um isolamento máximo, tanto quanto possível. Desnecessário dizer que, depois de 22 meses de reclusão, morando sozinha, a tristeza tornou-se companheira recorrente e a ideações nada recomendáveis se fazem presentes.

Eu quero poder passear – sempre fui apaixonada por viagens, carro na rodovia é a minha terapia. Conhecer lugares, passar dois ou três dias visitando cidades, hospedando-me em hotéis. Sentir o doce prazer da liberdade. Mas a médica hematologista disse-me “some, te cuida, te mantém reclusa, a Covid é uma doença de alto risco para ti”! O estresse já chegou aos níveis estratosféricos. Leio, sou revisora de textos. Leio, produzo textos, escrevo e publico crônicas, converso com cães e gatos. Nada é suficiente. Dispenso visitas.

EU QUERO A MINHA VIDA DE VOLTA!

Nunca tive dúvida sobre a eficácia da vacina. Fiz a primeira dose, vamos aguardar que mais pessoas estejam vacinadas. Fiz a segunda dose da vacina, sobreveio um resfriado e o temor – sempre presente: eu não quero contaminar outras pessoas, recolhi-me. Agora, fiz a terceira dose. Diante de uma variante teoricamente menos perigosa, que não leva tantos pacientes à UTI, deparo-me com uma variante extremamente contagiosa. E o que vejo? Total ausência de cuidados! Total falta de cumprimento aos protocolos! Total ausência de fiscalização. Como ousar sair de casa? Quem cuidará de mim? Quem me protegerá?

EU QUERO A MINHA VIDA DE VOLTA!

Eu só queria que as pessoas entendessem que, ao arguirem o seu [falso] direito de ir e vir, sem as medidas de higiene prescritas pela ciência, elas estão pondo em risco a vida de outras pessoas e, mais que isso, impondo-nos o sofrimento da reclusão. Somos presidiários, vivendo em domicílio, sem termos cometido crime, apenas para que outros abusem do seu direito de ir e vir. Nós também gostaríamos de ir à praia, de visitarmos nossos amigos, conhecidos, parentes, mas é a nossa vida que corre risco e o bem maior, o direito maior de um ser humano, é a vida. Por que as pessoas não entendem isso? Por quê?

Não posso ter nem um naquinho da minha vida de volta, resta-me chorar a incompreensão e o egoísmo humano.

Elaine dos Santos

Professora Doutora em Letras (UFSM)

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